Dia do Leitor - 07 de Janeiro
Falo de leitura de livros. Quando você vê alguém – menino ou adulto – lendo um livro, presencia uma pessoa às voltas com uma grande exigência. A palavra escrita o põe na parede: pede a ele uma interação que manda às favas a passividade. A leitura fricciona a percepção; é a fricção de duas pedras – fiat lux! – ao discutir com o leitor os acontecimentos, os personagens, as idéias. Não, quem lê não está imóvel, é puro dinamismo e motor. É como uma barriga grávida: num aceleradíssimo tempo de prenhez, o texto-embrião se torna mais inteiro e precisa ser alimentado pela atuação do que lê, precisa dos olhos e da atenção desse companheiro. Na chamada cultura de massas, a leitura – notadamente de livros – enfia-se no presente, fabrica o que virá. Quem lê é um da Vinci, diagramando os recursos recebidos, aplicando cor. E fazendo. A importância primeira do ato de ler é essa negação da passividade, essa incondicional exigência de ação. É um ato de otimismo intrínseco.
Tom Zé
Escrito por Rafaela às 20:13
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Receita de Ano Novo - Carlos Drummond de Andrade
Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor de arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ver, novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta ou recebe mensagens? passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas nem parvamente acreditar que por decreto da esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.
Escrito por Rafaela às 18:30
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