Como voce QUiser? Emir Sader
''Os próximos 40 anos podem ser como você quiser'' - o novo slogan publicitário da Rede Globo, para comemorar sua quarta década de existência - traz uma mensagem positiva e outra negativa. A positiva é a de recordar às pessoas que o futuro pode estar nas mãos de cada um, apesar de que tudo ou quase tudo nos leva a crer que nosso destino está longe do alcance das nossas mãos. É bom as pessoas saberem que as catástrofes, como a da discoteca de Buenos Aires, por exemplo, não são uma fatalidade. Os argentinos voltam às ruas para cobrar medidas de regulação e controle sobre as casas de espetáculo público, mas também pela demissão dos responsáveis públicos, que deveriam ter cuidado disso e teriam evitado a morte de filhos de tantos deles. É bom as pessoas saberem que é responsabilidade do setor público vigiar e punir a atuação das empresas privadas que, guiadas pelo lucro, não se preocupam com a segurança das pessoas, ainda mais quando ela se choca com seu afã de ganâncias. Foi precisamente o caso da boate de Buenos Aires, quando as portas foram trancadas com cadeado, ''para evitar penetras'', atentando de forma criminosa contra a segurança das pessoas. É bom as pessoas saberem que o mundo é construído pelos homens e que assim pode ser reconstruído, redirecionado, que nada é fatal na história, que outro tipo de sociedade e de mundo são possíveis. Mas a frase seria enganosa, se impedisse que as pessoas se perguntassem se o que passou nos últimos quarenta anos se deu ''como você quiser'', isto é, se o destino das pessoas esteve nas mãos delas mesmas ou não. Senão seria gerar vãs ilusões, seria mais um mecanismos de engano, de iludir as pessoas de que estão decidindo o destino das suas vidas, enquanto os que efetivamente manejam o poder sobre a vida dos outros continuam a fazê-lo impunemente, longe dos olhos e das vidas da grande maioria das pessoas. Em 1965, quando a Globo, com contrato com a Time-Life, surgia como canal de televisão, tínhamos acabado de sofrer a maior brutalidade contra a vontade das pessoas da história republicana do Brasil, com o golpe militar. Foi esse novo poder, espúrio, imposto pela força, ''contra o que as pessoas queriam'', que concedeu à Globo o canal de TV e aceitou esse acordo. O povo brasileiro tinha eleito um outro governo: com a renúncia de Jânio Quadros, tinha tomado posse aquele eleito como seu substituto imediato, conforme a vontade popular, João Goulart. Este foi derrubado, contra a vontade expressa da maioria da população, que nunca votou, nem elegeu nem a Castelo Branco, nem a Costa e Silva, nem a Garastazu Médici, nem a Ernesto Geisel ou a João Batista Figueiredo, para que dirigissem os destinos do país, com todas suas conseqüências sobre a vida das pessoas. Eles foram ditadores e não presidentes eleitos pelas pessoas. Outras grandes empresas privadas brasileiras foram impedidas de ter seus canais, pela estreita conexão da Globo com o poder militar imposto e não escolhido pelas pessoas. Em seguida, quando a campanha pelas eleições diretas, desatada por organizações populares, com o desconhecimento da TV Globo, que só aderiu quando sua realidade era irreversível, não foi ''o que as pessoas queriam'' que se impôs. A maioria do Congresso Nacional votou pelas eleições diretas para presidente da República, atendendo o clamor das ruas, mas uma minoria, que incluía a parlamentares biônicos, impostos pelo governo ditatorial, bloqueou essa possibilidade. Não foi, assim, a democracia que ''as pessoas queriam'' que se impôs no Brasil, há vinte anos. Dos 40 anos passados desde então, a metade foi com ditadura militar, outros cinco com um presidente - José Sarney - eleito por um Colégio Eleitoral biônico. O primeiro presidente eleito pelo povo se deu em 1999, há pouco mais de uma década e meia, com um peso extraordinário da própria TV Globo - como bibliografia mais recente confirma ou não consegue esconder -, fator que continuou pesando, mais além ''do que as pessoas queiram''. É o poder avassalador da mídia - especialmente a televisiva - que penetra nas casas e nas almas das pessoas, produzindo consumidores e espectadores, em detrimento dos cidadãos e da capacidade autônoma de reflexão e de decisão sobre o que as pessoas realmente queriam - nos 40 anos passados - e querem nos próximos 40 anos. Fonte: - Jornal do Brasil - 09/01/2005
Escrito por Rafaela às 13:41
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