Quem lembra de Calvísio Sabino? Quem nos fala dele, para criticar, é Sêneca,
em uma de suas Cartas Morais: Sabino, um dos romanos influentes de seu
tempo, era dono de uma imensa fortuna e de escassos dotes intelectuais. Sua
formação era mínima, sua memória era péssima e, embora tivesse todo o ócio
do mundo, não lia sequer uma linha. Ciente de que uma educação precária era
indigna para um homem de sua posição, Sabino encontrou uma curiosa maneira
de suprir essa deficiência: mandou seu feitor procurar e adquirir, ao preço
que pedissem, escravos que soubessem a obra de Homero, de Hesíodo e de
Virgílio de cor. Para que não dissessem que desprezava a poesia, adquiriu
também, por somas fabulosas, um escravo especializado em cada um dos nove
grandes líricos da Grécia. Se para determinado autor ainda não havia escravo
pronto, ele fazia a encomenda, a fim de que o preparassem. Quando reuniu um
bom acervo, tornou insuportável a vida dos seus convidados, pois mantinha
essa bizarra biblioteca humana de pé, atrás de si, durante o jantar, e os
consultava sempre que queria citar algum verso especial - embora geralmente
não conseguisse repeti-lo até o fim, porque sempre esquecia um pedaço. A um
amigo mais íntimo que perguntou se achava isso adequado, Sabino respondeu
que cada escravo treinado daqueles tinha custado uma pequena fortuna; eles,
portanto, eram seus, bem como era sua toda a cultura que traziam na cabeça.
Mil e seiscentos anos depois, na França do século 17, Molière resolve
criticar também um desses novos-ricos incultos, na clássica comédia O
Burguês Fidalgo. Monsieur Jourdain é um homem simples que se torna
milionário com o comércio de tecidos e - que história mais antiga! - passa a
alimentar o sonho de ser reconhecido socialmente pela aristocracia. Para
isso, contrata professores que lhe ensinem dança, retórica, matemática,
filosofia e esgrima - com pouquíssimo resultado, é claro, pois, como bom
burguês, ele rejeita qualquer idéia mais complexa e desconfia de tudo que
seja novo ou exija um esforço maior de raciocínio. Eu muito me diverti com a
breguice intelectual dos Jourdains e dos Sabinos que encontrei por aí, mas
hoje, quando penso na barbárie de nossos novos endinheirados - que podem
dissertar sobre grifes e lojas famosas, mas jamais porão um dedo em Homero
ou em Virgílio -, passo a vê-los com um olhar de nostálgica simpatia, pois
representam um mundo em que a cultura ainda tinha valor. Os dois podiam ser
vigaristas, mas viam, à sua maneira, a educação como algo desejável, e a
literatura, a arte e a filosofia como sinais exteriores da verdadeira
riqueza.